MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


domingo, 8 de Novembro de 2009

A CHAVE DA CALENDÁRIA


Lamia (by the Pond), John William Waterhouse, 1909


A nuvem de corvos pairava,
De asas agrestes num luto sórdido,
Penas de cotovia na humilde Dama.
Um ser único entre a demanda.

Trovava o bardo – Que fogo novo trouxera
Era chamada a Senhora da Chama,
O bando de pássaros na penumbra
Um cabelo vermelho oscilava…

No seu ventre a Chave envergava,
Conhecedora da Verdade singelosa.
A Guardiã do portal era mestre
Poetiza das chamas,
E a mais melodiosa.

Ardia de Luz a grande Brígida,
Suspirando fogo intemporal
Na mente do vento e no canto da carriça
Num canto incandescente incolor e primordial.

Na arte do tempo onde os corvos dançavam
Ainda lá se encontrava a doce Dama,
Rainha da Chama, rainha da chama…
Saudosa, temível, celestial.


Luthien

NIETZSCHIANA


Manuel Bandeira (estátua da autoria de Otto Dumovich no centro do Rio de Janeiro, na Praça com o nome do poeta), Raimundo Mesquita, 2007


– Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
– Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.


Manuel Bandeira

PATRICIA PETIBON – La Poupee, Les Contes d'Hoffmann (1881)

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MEDICINA E MAGIA NO PORTUGAL ANTIGO, Medicina no Tempo dos Lusitanos




Pouco sabemos, de ciência certa, do exercício da Medicina no Período Paleolítico na Península Ibérica e, em especial, das artes médicas dos Lusitanos. É tentador procurar estabelecer analogias com os dados colhidos entre povos que conservaram, até épocas recentes, hábitos primitivos.
A Medicina, a Religião e a Magia misturavam-se, no alvorecer da Humanidade.
O culto dos antepassados está presente em quase todas as religiões
primitivas. É fácil imaginar que o papel que representaram no Período Paleolítico não tenha sido muito diferente do que ocupam na mitologia de alguns povos africanos actuais. Ainda hoje se acredita que os antigos sobrevivem, ainda que de modo ténue, e que conservam o gosto e o poder de interferir nos assuntos dos vivos. Ajudam e premeiam, mas sobretudo, vingam e castigam. Um homem sensato deve esforçar-se por manter boas relações com os espíritos dos que o precederam.
Quimbandas e Xamãs, distantes pela Geografia mas próximos pelas funções, medeiam as relações com o mundo imaterial. São eles, também, quem diagnostica e trata as doenças. O tratamento comporta geralmente uma parte religiosa e outra medicamentosa. Esta implica o recurso à ingestão de substâncias variadas, habitualmente de origem vegetal.
Entre a Religião e a Medicina, o caminho é bem curto. Para além das montanhas e dos bosques, que se imaginavam povoados por deuses, também o deslizar dos rios e os murmúrios das fontes eram objectos do culto dos nossos antepassados. Foram encontradas, na Península Ibérica, lápides dedicadas às divindades das fontes e datadas da época da dominação romana. Chamavam-lhes “ninfas”, ou apenas “fontes”.
É fácil imaginar que as águas que brotavam quentes da terra (as caldas) ou as que se distinguiam pelo seu cheiro ou sabor, eventualmente sulfuroso, fossem consideradas detentoras de virtudes curativas. Da sobrevivência dessas crenças serão testemunho as estações termais da actualidade.
Apenas no Período Neolítico final (Calcolítico) foram encontrados amuletos com aparente significado mágico.





São antepassados, em intenção, da Medicina Preventiva. Esperava-se que dessem protecção contra certas doenças. Na falta de conhecimento das causas dos males que traziam o sofrimento e a morte, recorria-se à magia. Não sabemos, entre nós, de regras sanitárias transportadas para a Religião, como a proibição do consumo da carne de certos animais.
A sangria foi método terapêutico comum entre egípcios, indianos, gregos e romanos. Povos das Américas do Norte, Centro e Sul, da Nova Guiné e da Austrália também recorreram a ela. Foi usada tão indiscriminadamente que maldizentes afirmavam que os médicos apenas sabiam sangrar.
Na Beira, na Estremadura, e em antas do Alentejo, foram achadas laminazinhas de cristal de rocha e de sílex que fazem, de algum modo lembrar lâminas de bisturi.





Tais “micrólitos”, com os cabos de osso e madeira que o tempo terá destruído, poderão bem ter servido de lancetas para sangrar veias e drenar abcessos.
Estrabão, ao falar da etnologia de povos montanhosos da Ibéria, contava que os familiares expunham os doentes à beira dos caminhos para que quem passasse e tivesse padecido de mal semelhante, ou dele tivesse notícia, os pudesse aconselhar. Nada há de novo nessa estratégia. Já os Assírios a praticavam.
A Medicina, a Religião e a Magia continuam a misturar-se nos dias de hoje. Ainda, há tempos, se usavam pedaços de cera que sobrava das velas das festas da Semana Santa como amuleto contra as trovoadas. Que dizer dos santos que tomaram conta, na Europa, do monoteísmo judaico? Alguns foram considerados protectores contra doenças como o ergotismo ou a peste. Que dizer dos poderes curativos da Senhora de Fátima?
Quem passar, hoje ou amanhã, pelo Campo de Santana, em Lisboa, frente à Faculdade de Medicina, poderá facilmente observar, no monumento ao médico Sousa Martins, uma grande quantidade de ex-votos e de placas de agradecimento pelas graças recebidas.
Vê-se que, ao longo dos tempo, não mudámos assim tanto. Os séculos passaram, mas o território é o mesmo e a mentalidade das pessoas não se alterou tanto como seria de esperar. Muitos dos nossos compatriotas, sem descrerem da medicina moderna, ao enfrentarem dificuldades que não podem ultrapassar, procuram alargar o domínio da esperança, apelando ao sobrenatural, como faziam os nossos distantes antepassados.


Referências:
J. Leite de Vasconcelos, Medicina dos Lusitanos, Conferência Proferida na Faculdade de Medicina de Lisboa em 1925.
J. Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, Imprensa Nacional, Lisboa, 1897.
Religiões da Lusitânia, Loquuntur Saxa, Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa, 2002.
António Trabulo, O Dia em que Deus Começou a Desmontar o Mundo ( no prelo).

Imagens:
Ara Votiva ao Deus Endovélico, in Religiões da Lusitânia, Loquuntur Saxa, Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa, 2002.
Amuletos Fálicos, idem.
Artefactos do Paleolítico Superior, in H. N. Savory, Espanha e Portugal, Editorial Verbo, Lisboa, 1971.

DITADOR


The Raft of George Bush, Joel-Peter Witkin, 2006


Misericórdia? É um conceito inglório
De cruel ventura ditada aos fracos.
Não possuo eu o que me é vão.
Que da complacência ganho um marco
De rocha erodida, a abater,
Promontório cadente. Mas não cairei,
Dito a Vontade e sou a Lei,
Legado do frígido fogo do poder
Que constrange e silencia,
Que incendeia e queima em cinza
A alma viva que é a morte que almejo
À sua vontade caída.

sábado, 7 de Novembro de 2009

O SENHOR DOS NAVEGANTES III


A água desta fonte é dos regantes desta preza, Ruela, 2009


[…] Tenho lido muito, muito; desde há quatrocentos anos quase não faço outra coisa.
Por um lado, a leitura distrai-me, leva-me a esquecer a cadeia; por outro, tortura-me, pois é pelos livros dos homens que eu vejo, sobretudo o drama que criei… Ultimamente, lá no manicómio, só queriam dar-me livros optimistas, livros em prol. Os médicos afirmavam que essas obras não me despertariam ideias sombrias… Mas eu protestei imediatamente…
– Ah, o senhor esteve no manicómio? – perguntei, de modo tímido.
– Estive – respondeu-me ele, com naturalidade. – Não tenha medo de me ofender, pois desde o princípio adivinhei que o senhor pensa que eu sou louco. Não me ofende nada… Todos têm pensado de mim a mesma coisa, já lhe disse. Estive e lá estaria ainda se, ontem, não tenho conseguido fugir. Estava lá ia já para oito anos. E sabe porquê? Porque, um dia, entrei numa igreja e gritei aos crentes que se encontravam ajoelhados: «Não vos resigneis, pois o mundo que eu fiz é muito imperfeito e, portanto, precisa mais do vosso esforço do que da vossa resignação. Imperfeito há-de ele ser sempre e vós também; contudo, em muita coisa podeis aperfeiçoar o mundo e a vós próprios. Mas não é de joelhos que o fareis; é de pé e a lutar! Quem vos fala já foi Deus e sabe por que fala assim…» […]


Ferreira de Castro in O Senhor dos Navegantes, Colecção 98 Mares – Expo'98, Lisboa, 1998

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Hosannas From the Basements Of Hell, Killing Joke, 2006

ORLA MARÍTIMA


Canibalismo na Jangada da Medusa
, Théodore Géricault, 1818 (um dos estudos preparatórios da tela A Jangada da Medusa)



[…] Se alguém, daí, das ilhas Estrímnides, ousa o barco impelir nas ondas para os lados em que, devido ao eixo de Licáon [constelação da Ursa Maior: significando o norte; Licáon, pai de Calisto transformada em ursa], o ar enregela, penetra-se na terra dos Lígures, agora desabitada. Graças à acção dos Celtas e às numerosas lutas, as terras foram há muito evacuadas; e os Lígures expulsos, como faz o destino a cada passo a outros, chegaram à terra que habitam agora, quase sempre em densas florestas. Nesses lugares são frequentes os recifes e rígidas as rochas; os cumes dos montes metem-se pelo céu. E foi assim que esta tribo, fugitiva por muito tempo, viveu entre desfiladeiros rochosos, afastada das ondas. Temia o mar em consequência dos perigos passados. Depois a tranquilidade e o repouso, robustecida a audácia pela segurança, persuadiram-nos a sair dos elevados refúgios e a descer mesmo para os locais à borda do mar.
Depois de Estrímnis, de que falámos acima, patenteia-se um grande golfo de vasto mar até Ofiússa [extremo ocidental da Ibéria: Portugal]. Em seguida, desde este litoral até ao mar interno – que penetra na terra, como antes disse, e a que chamam Sardo [braço do Mediterrâneo entre a Ibéria e a Sardenha] – estende-se ao caminhante uma jornada de sete dias. Ofiússa apresenta tanta extensão quanta ouves atribuir à ilha de Pélops, no território dos Gregos. Chamada primeiro Estrímnis [terra dos Estrímnios no noroeste da Ibéria; expulsos pelos Sefes, que adoravam um deus em forma de serpente], por os Estrímnios habitarem aí lugares e campos, posteriormente um sem-número de serpentes afugentou os moradores e deu o seu nome à terra deserta.
Em seguida avança no abismo o cabo de Vénus [cabo Higuer: ponto mais ocidental dos Pirinéus; onde existiu um templo consagrado à deusa] e o mar ruge em volta de duas ilhas, desabitadas devido à sua pobreza. Depois o Aruio [cabo Ortegal: ponto mais ocidental da costa setentrional da Ibéria] emerge proeminente na direcção do áspero Setentrião. Daqui até às Colunas de Hércules [promontórios rochosos na entrada do estreito de Gibraltar] vitorioso a viagem de barco demora cinco dias. Em seguida, encontra-se no meio do mar uma ilha abundante em ervas e consagrada a Saturno [Berlenga Grande]. Nela a força da natureza é tanta que, se alguém navegando se aproxima dela, de imediato em volta o mar se excita: a própria ilha se agita e a água revolta-se toda, fortemente embravecida, enquanto o resto do pélago permanece silencioso como se fora um tanque.
Depois emerge nos ares o promontório de Ofiússa [cabo da Roca: ponto mais ocidental da Europa]. Do cabo Aruio até estes locais dista uma viagem de dois dias. […]


Versão latina (com alguns acrescentos) de Rúfio Festo Avieno, séc. IV, de um périplo grego do séc. I a.C., talvez do geógrafo Cimno
Tradução de José Ribeiro Ferreira in Orla Marítima, INIC, Coimbra, 1985, pp. 20-22.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

APELO, PROPOSTA I (FRAGMENTO)


Colagem, Goldmundo, 2009


Proposta I

Nada falta ao triunfo da civilização.
Nem o terror político nem a miséria afectiva.
Nem a esterilidade universal.
O deserto não pode crescer mais: está por todo o lado.
Mas pode ainda aprofundar-se.
Perante a evidência da catástrofe, há os que se indignam e os que agem, os que denunciam e os que se organizam.
Nós estamos do lado dos que se organizam.


Anotação

Isto é um apelo. Ou seja, dirige-se àqueles que o quiserem escutar.
Não nos daremos ao trabalho de demonstrar, argumentar ou convencer.
Iremos à evidência.
A evidência não é, desde logo, uma questão de lógica, de raciocínio.
É do domínio do sensível, do domínio dos mundos.
Cada mundo possui as suas evidências.
A evidência é aquilo que se partilha ou que divide.
Depois da qual toda a comunicação volta a ser possível, não mais imaginada, mas a construir.
E aprendemos tão bem a duvidar, a fugir, a calar, a guardar para nós essa rede de evidências que NOS constitui. NÓS aprendemos tão bem que todas as palavras nos escapam quando queremos gritar.
Quanto à ordem sob a qual vivemos, cada um sabe a que se agarrar: o império cega a vista.
Que um regime social agonizante não tenha outra justificação para a sua arbitrariedade senão a sua absurda determinação – a sua determinação senil – em simplesmente durar;
[…]
Que a civilização, ferida no seu coração, nada mais encontre, na guerra permanente em que se lançou, senão os seus próprios limites;
[…]
Que a massa de humanos se acomode a golpes de mentiras, de cinismo, de embrutecimento ou de recompensas a esta ordem de coisas;
Ninguém pode fingir ignorá-lo.
E o desporto que consiste em descrever sem fim, com uma complacência variável, o desastre presente, não é mais do que uma outra maneira de dizer: «É assim»; a palma da infâmia é atribuída aos jornalistas, a todos aqueles que aparentam redescobrir, cada manhã, as sujidades que haviam constatado na véspera.
Mas o que mais perturba, no momento, não são as arrogâncias do império, mas antes a debilidade do contra-ataque. Como uma paralisia colossal.
Uma paralisia de massas, que tanto diz que nada há a fazer, enquanto ainda fala, como concede, se a isso é obrigada, que «há tanto a fazer» – o que não é diferente. Depois, à margem desta paralisia, o «é realmente necessário fazer alguma coisa, não interessa o quê» dos activistas.
[…]
O que se opõe à desolação dominante não é, em definitivo, mais do que outra desolação, pior aprovisionada. Por todo o lado se trata da mesma ideia tola de felicidade. Os mesmos jogos de poder tetanizados. A mesma desarmante superficialidade. O mesmo analfabetismo emocional. O mesmo deserto.
Afirmamos que esta época é um deserto, e que este deserto se aprofunda sem cessar. Isto, por exemplo, não é poesia, é uma evidência. Uma evidência que contém muitas outras. Nomeadamente a ruptura com tudo o que protesta, tudo o que denuncia e glosa sobre o desastre.
[…]
O deserto é o progressivo despovoamento do mundo.
O hábito que adquirimos de viver como se não estivéssemos no mundo. O deserto está na proletarização contínua, massiva, programada das populações, tal como nos subúrbios californianos, onde o sofrimento consiste justamente no facto de ninguém parecer já reconhecê-lo.
Que hoje não se consiga discernir o deserto, só confirma ainda mais o deserto.
Alguns procuraram nomear o deserto. Designar o que nele se deve combater, não enquanto acção de um agente estrangeiro, mas como um conjunto de relações. Falaram de espectáculo, de biopoder, de império. Mas também isso se veio juntar à confusão em vigor.
O espectáculo não é uma abreviação cómoda de meios de comunicação de massas; reside sobretudo na crueldade com que tudo nos reenvia incessantemente para a nossa própria imagem.
O biopoder não é um sinónimo de Segurança-social, Estado-providência ou indústria farmacêutica; antes se aloja aprazivelmente na inquietação que nos trazem os nossos corpos bonitos, numa certa estranheza física tanto em relação a si como aos outros.
O império não é uma espécie de entidade supra-terrestre, uma conspiração planetária de governos, de redes financeiras, de tecnocratas e de multinacionais. O império está em todo o lado onde nada se passa. Em todo o lado onde tudo funciona. Aí onde reina a situação normal.
[…]
Existe um contexto geral – o capitalismo, a civilização, o império, como quisermos –, um contexto geral que não pretende apenas controlar todas as situações mas, muito pior, procura assegurar que não se tornem frequentes as situações. NÓS ornamentámos as ruas e as casas, a linguagem e os afectos, e depois o ritmo mundial que arrasta tudo isto exerce o seu efeito singular. Por todo o lado NÓS fazemos de conta que os mundos deslizam uns sobre os outros ou se ignoram. A «situação normal» é esta ausência de situação.
[…]
Organizar-se quer dizer: tornar a situação consistente. Torná-la real, palpável.
[…]
À situação em que nos encontramos chamaremos «guerra civil mundial».
[…]


Nota: o texto faz parte de "Appel", de um autor anónimo francês. Apenas se sabe que foi escrito em 2003. A tradução portuguesa é das Edições Antipáticas.

PORTUGAL COM SAUDADES DE SER PORTUGAL


O Fado, José Malhoa, 1910


Pertenço hoje a uma geração sem pátria e sem futuro.
Se me perguntarem o que é Portugal, existe ainda a chama e o sorriso, em incongruência com a ideia de que a mediocridade em Portugal grassa da mesma forma do que em todo o Mundo conhecido.
Mas existe uma diferença colossal. Algures por baixo da mediocridade, da estupidez e da inexistência de condições, existe ainda uma geração que pulsa. A geração lusitana, que é mais do que todas as outras.
Porque existe saudade e existe fado que é superior ao som do fado, que é um estado de alma, uma forma de olhar e de sentir.
São poucas as vezes em que sentimos a pátria, em que ela nos apela. Como a cultura portuguesa, o mar português ou a cidade de Lisboa ou do Porto.
São poucas as vezes que dizemos com orgulho: eu sou português.
Mas quando o fazemos inflama-se a alma. Quando paramos a azáfama dos dias e nos elevamos da ignorância, do trânsito, das politiquices e do Cristiano Ronaldo.
Quando olhamos para o Tejo e esquecemos a dor da alma. Quando o que é pitoresco ainda nos sorri, a herança de heróis e canções e mares.
Pertenço hoje a uma geração sem pátria e sem futuro, que os grandes delapidaram e os medíocres mancharam. Pertenço hoje a uma geração sem esperança.
Mas também pertenço a uma onda de poesia e outono. Enquanto existir poesia, Lisboa renasce ao meu lado, enlaça-me e sorri-me um sorriso de fado.
E com ela, Portugal inteiro a piscar-me o olho, a seduzir-me cansado.
Portugal com saudades de ser Portugal.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

O SENHOR DOS NAVEGANTES II


Deep Green, Ruela, 2009


[...] A minha imaginação havia já começado a diminuir, começava já a aproximar-se do que viria a ser a imaginação dos homens. Criei um pássaro e os outros foram apenas variantes. Utilizei o primeiro modelo e fi-lo de todos os tamanhos, desde a avestruz, tão grande que pode ser cavalgada, até ao colibri, que, de minúsculo, se confunde com um insecto. A seguir, fi-lo de todas as cores e com todas as combinações de cores. Depois, em vez de criar, pus-me a exagerar determinadas parcelas do que já havia feito. E cheguei, assim, até a caricatura da minha própria obra. A algumas das aves limitei-me a esticar-lhes as pernas, as caudas ou os bicos, de tal forma que estes ficaram grotescos e muito maiores do que o corpo. As outras dei-lhes uma amplitude de asas de que não careciam ou deixei-lhes apenas uns simples cotos. Variei-lhes, também, o fulgor dos olhos e a composição dos seus gorjeios, deixando umas eternamente mudas e obrigando outras a cantarem até na hora da morte. Mas tudo isso eram simples pormenores, porque, no fundo, a ave, a ideia fundamental, eram a mesma. Eu parecia um desses artistas que realizou, certo dia, uma descoberta feliz e passou, depois, o resto da vida a lutar desesperadamente para dar a ilusão de que não se repetia, quando, em realidade, não fazia outra coisa senão plagiar-se a si próprio… [...]


Ferreira de Castro in O Senhor dos Navegantes, Colecção 98 Mares – Expo'98, Lisboa, 1998

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Battle Hymn, Faith and the Muse, 2009

SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA


Marks Made By Freud, Subconsciously, Cornelia Parker, 2000



Estes olhos não me pertencem, pelo que agarro a sede de os devorar com as mãos, esgravatá-los num murmúrio que se pretende corrosivo à alma: calem-me esses silêncios inusitados que nada mais fazem do que lamber o soalho onde os meus pés antecipam a quietude.
Isto, isto, este corpo pendurado por um fio de asma, um torpor que arranca o sonho ainda possível de desenhar a giz no chão da minha memória, embala-o e afasta-o de mim.
Vejo como se contorce na direcção contrária à sobrevivência, a língua vomita-se quando o vácuo de um grito se rasga nu em torno do pescoço níveo, e o suicídio é um mal magnético ao terrível apetite de esmagar o paraíso perdido, sob a égide da loucura.
Mamã, quero os teus braços de casa e querer, onde o sol que cozemos em nós convence todos os anjos a sossegar quaisquer tempestades.

Antígona


Le Sacre du Printemps, Ígor Stravinsky, 1913, Pina Bausch's Wuppertal Dance Theater, 1975

TAÇA E PUNHAL

Para o Jesus Carlos


Red, Emil Schildt, 2003


Tremeram-me as mãos, tremeram; bem sei,
quando meus lábios, d’um carmim ainda quente,
sorveram o cálice amargo das promessas,
minha taça de ouro, e brilhantes pedras,
tentadora como a morte e, como ela, bela;
garante final da paz que em vão busquei…

Era o medo, bem o sei, que me fazia tremer assim...
A dor, essa dor que se segue ao fatal trago
como cruel punhal ao meu peito prometido,
como fogo vivo que meu corpo lambe, enraivecido...
Mas, oh como fui fraca afinal, pobre de mim!
temendo esse calvário que me ia salvar por fim...

UMA HISTÓRIA SEM TEMPO

Para a Cacau, com os meus votos de rápidas melhoras


Elegy III, Samuel Bak, 1997


Os cristãos gostam muito de sofrer com Job, e algum se preocuparia com um anjo doente? Vou-te contar uma história que tem sido testemunhada pelos homens da minha família aos meninos quando chegam à idade das orações.
Na aurora dos tempos, quando o Povo procurava uma pátria, um pastor sentiu o rebanho agitado. Aproximou-se e encontrou no meio das cabras um capitão dos exércitos do Senhor, sentado e coberto das fezes dos animais. O pastor era um homem simples, cheio de temor a Deus e ainda maior temor aos anjos, que traziam tantas vezes o castigo das pestes. Quis ajoelhar-se e só o seu coração ajoelhou, as pernas não lhe obedeceram. Queria falar e a língua estava seca como uma pedra no deserto ao sol do meio-dia.
Ficou transtornado a olhar para o anjo, que tinha a cabeça caída sobre o peito, com o rosto oculto pelo brilho do cabelo. O pastor então estendeu o braço e ofereceu-lhe a malga de leite que estava a beber.
O anjo ergueu o rosto e disse: Estou doente, filho de homem, e tu não me podes curar. Nem todo o leite do mundo poderia lavar a minha alma.
Então o pastor respondeu: A nós, homens, tudo nos mata. Mesmo o que nos sustenta traz a morte para dentro de nós. Tu és um anjo, bebe, o leite tem bom sabor, gosto de o beber quando chego ao pé do rebanho, antes do nascimento do sol. Olho em redor e sei que estas cabras são tudo o que tenho e que a minha vida não teria sentido se um dia o Senhor as matasse a todas. Por isso te peço, mata-me a mim, porque estes animais estão inocentes de todos os pecados dos homens.
E o anjo disse: Não trago a morte. Estou apenas aqui a descansar. Por momentos quis ser uma destas cabras e ser eu a quem tu alimentavas pela manhã.
O rebanho de cabras agitou-se de novo, tapando o centro onde o anjo estava, e quando o pastor as afastou o anjo tinha desaparecido, deixando escrito a fogo no chão árido: Somos todos estas cabras a quem o Senhor abandonou.
Não peças que te explique o que quer dizer esta história, sou apenas um Rabi que sonha demais, mas cada vez que penso nela, ou a conto, ajuda-me a viver.


Lord of Erewhon

A RECORDAR OS HOMENS-ÁGUIA...




[...]
A atitude dos homens da Renascença Portuguesa face à República pautou-se coerentemente pelo quadro de valores fundamentais que enformavam a sua doutrina cívica: a luta pela liberdade e por uma democracia tolerante, no respeito da identidade cultural do povo português, dentro de um patriotismo universalista, como condição de uma «nova Renascença», a que Pascoaes, como Leonardo e Cortesão, cada qual a seu modo e com a sua linguagem – poética, filosófica, política – faziam apelo. Basta cotejar as tomadas de posição de uns e de outros para aprender a alta visão que, com tonalidades diversas, todos tinham da República.
[...]

A história das relações entre a Renascença Portuguesa e a República foi a das convergências e divergências entre um movimento cultural que se situava ao nível dos valores cívicos e éticos e um regime que pouco a pouco perdeu a alma, resvalando para o que Leonardo chamou «uma República política de campanário, cuidando mais dos mesquinhos interesses partidários do que da administração e dos interesses públicos». Como escreveu Fernando Pessoa, que também renascentista foi, nas páginas d’A Águia, se «é dentro do republicanismo, e pelo republicanismo, que está, e será, o glorioso futuro deduzido», esse «republicanismo» não se pode confundir com o do regime instituído. Ele encontra-se na obra dos poetas, filósofos e intelectuais da Renascença Portuguesa, transcendendo o circunstancialismo e o oportunismo dos políticos de ocasião.


José Augusto Seabra
In
A Renascença Portuguesa e a República, jornal República, nº6, Dezembro de 2000.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

LENDAS E FOLCLORE LUSITANOS, A Lenda da Boca do Inferno




Na zona a que chamamos de Cascais, vivia um feiticeiro de renome, cujas práticas de poder, exigindo âncora, o conduziram na procura daquilo que nomeou como “Filha de Vénus”. A Vénus, realizavam-se sacrifícios de fogo puro. A partir do centro do seu coração, o feiticeiro encarcerou este fogo num anel e procurou a mulher mais bela no reino. Esta foi capturada pelos cavaleiros do feiticeiro e levada ao castelo, o feiticeiro colocou-lhe o anel, casou-a e encerrou-a na torre mais alta e isolada, depositando a sua guarda a um cavaleiro pelo qual nutria grande estima.
Contra as ordens do seu amo, o cavaleiro permitiu-se um vislumbre da “Filha de Vénus”, enamorado, escapou com ela a galope. Levou-a para uma gruta onde pretendeu libertá-la do encantamento, chamando um padre para matrimónio cristão. O fogo consumiu a gruta, abrindo-a ao mar, criando aquilo a que chamamos “A Boca do Inferno”, onde o sonho aprisionado do incauto cavaleiro atrai os viandantes à vertigem.

... O que se segue é esse sonho...




Boca do Inferno, Carla Sofia, 2007


Entre a espuma branca as estrelas aparentam ser colossais pedregulhos incendiados, e eu sou só um momento no seu sonho de sangue feito e desfeito. Esse momento ecoa, nele os meus órgãos enchem-se de ardor por ela, pequena, redonda de músculos e muito formosa. O seu cabelo é negro e ondulado, é de uma tez pálida como se uma nuvem de mística prateada a cobrisse, e as suas faces encontram-se coradas. Possui olhos fundos e possui olhos tristes, com o brilho esquecido do céu, as orelhas são redondas, pés esbeltos e nádegas como duas meias luas. Fitava-me, agressiva e contemplativa, depois tocava nos lábios com os dedos felinos e delicados. Senti-me inundado por um som mudo, cheio de significâncias, e acordei doente.
Deixei-a esticar-se e enrolei-me em volta dos seus pés, adormecendo sob o reflexo da Lua na sua pele. Pareço estar perdido nesta luminosidade, quando me beija a minha própria cor e a minha substância parece fundir-se com a dela e dissolver-se. Depois, comunica comigo. Fala com o nome das coisas e não com o nome que chamamos às coisas, transmite os sons com que cada coisa se originou. A humidade cai sobre nós na forma líquida e sobe também através de nós para se rebelar no tecto. Brilhante e translúcida com a luz das estrelas. A partir deste dia, espinhos brotam das minhas omoplatas para me alarem, como se eu fosse caule e rosa, espinhos brotam das minhas omoplatas para me atarem.
Nós não sabemos há quanto tempo. Não consigo determinar, ao certo, se estamos perdidos, se as portas se encerraram em paredes, ou se simplesmente não queremos escapar. Ela estimula-me, retira os monstros fálicos e serpenteantes da minha libido, vê-os erguerem-se das águas borbulhantes e abate-os no seu auge. Dos seus olhos jorra um líquido que os esvazia, alimenta-me disto e leva-me a sonhar, a sua expressão num esforço de sensação, como se eclodisse por dentro. Voltei o rosto para o tecto, qual se me jorrasse pelas fossas nasais. Não libertei sémen mas tentáculos, a minha carne escureceu. Os meus órgãos e os meus músculos e os meus ossos fundidos com a pele. Caí, de joelhos, no solo, e toda a dor do mundo se reuniu na minha tristeza. Ela abraçou-me, um braço sob o meu pescoço, a mão a afagar-me a nuca. Beijou-me a face. Em joelhos, as suas pernas, ainda bonitas, a tocar as minhas. Eu, um monstro. Abracei-a com um braço, fitando amargurado, o solo. E senti repulsa de mim mesmo.
Os meus olhos desvaneceram-se do meu rosto, engolidos pela carne nova. O meu cabelo caiu por completo. Os tentáculos nas minhas costas procuram erguer-se para o tecto, como raízes que se estendem para o céu, para a superfície do planeta. Ela ri-se, feliz. Aproxima-se, a brincar, e fita o meu órgão pendido. A água inicia o processo de subir para o tecto, entre os nossos corpos. As minhas mãos procuram-na, sentem-na, ao lado do seio, e os dedos da mão desocupada roçam os abdominais. Ela sorri, sinto o som dos seus lábios a separarem-se no sorriso. O seu cabelo está molhado, consigo cheirá-lo e consigo reparar como a água cai do seu cabelo contra a água que se situa abaixo do seu cabelo. Dobra os braços e agita os dedos, satisfeita. Lá fora, a noite do silêncio continua a esticar os lírios.

A ESSÊNCIA DO FORCADO PORTUGUÊS




O valor que provém da valentia, da coragem, do companheirismo, da amizade num laço de sangue.
A galhardia de um povo.


Pires F.


NOTA: Publicado pelo Pires F. no blogue da Nova Águia. Parafraseando o que a Clarissa por lá comentou, é de facto preciso mais que ética para avaliar a complexidade cultural e antropológica da tourada. Saliento ainda que na Corrida à Antiga Portuguesa não há toureio a pé (os chamados matadores, embora em Portugal, mesmo nas corridas comuns, a morte do touro na arena seja proibida), apenas toureio a cavalo e forcados. Estes pegam o touro de mãos nuas, não produzindo outro dano sobre o animal que segurá-lo e imobilizá-lo.
O video foi colocado no youtube por um Espanhol, que acerca do mesmo comenta o seguinte: «Bueno a mi me a parecido increible lo buen compañero que ai que ser.»

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

O SENHOR DOS NAVEGANTES I


Mar, Ruela, 2009


A minha fantasia não encontrava limite algum e os habitantes das profundezas deste mar que estamos vendo o atestam.


Branca, airosa, pequenita, erguida sobre o tope de uma colina, a Capela do Senhor dos Navegantes divisava-se de longe, como um farol.
E a ela, mais do que uma luz que brilhasse na noite atlântica, os pescadores enviavam esperanças e desesperos quando em graves riscos se viam nas cavas e lombas do mar. Porque ficava alta, ao fim de íngreme, pedregoso carreiro, raras gentes lá iam, salvo em dia de festa, com morteiros e filarmónica, uma vez cada ano. Fascinado pela sua solidão e largueza panorâmica, eu encontrara, porém, maneira de a atingir, naquelas tardes de Estio, sem me fatigar. Para subir às montanhas, um livro sob o braço, punha-me a caminho.
Logo que as pernas se cansavam, sentava-me e lia, enquanto os melros iam cantando nas velhas árvores da encosta. Sem o livro, pequeno seria o meu repouso e continuaria a ascensão antes de refeito, que a tendência de quem anda, leve rodas, leve hélices ou apenas, modestamente, os pés com que nasceu, é, já se sabe, chegar com brevidade ao ponto de destino – mesmo que nada tenha lá que fazer. Com um livro, é outra coisa. Sendo bom, prende-nos mais tempo do que os braços de uma mulher e só desejamos interromper a sua leitura no final de um capítulo ou em parágrafo onde possamos retomá-la facilmente. […]


Ferreira de Castro in O Senhor dos Navegantes, Colecção 98 Mares – Expo'98, Lisboa, 1998

MUNDO CÃO




No início do século 21, o mundo encontra-se infectado pelos vírus da padronização, da normalidade acrítica e da resignação. O paradigma neo-liberal, nascido na década de oitenta do século passado, levou ao seu esplendor o acrónimo T.I.N.A. (There Is No Alternative), espécie de slogan panfletário que resume, de uma forma mordaz, os ideais do consenso de Washington. Esta ordem das coisas, que de natural pouco tem, trouxe consigo as democracias decadentes (bem longe dos ideais gregos ou mesmo das teses contratualistas de Rosseau), políticos incompetentes, socialismos bacocos e… um grande vazio. Nas relações pessoais, o ideal é o da normalidade; o padrão torna-se norma de conduta e qualquer desvio é olhado de soslaio, com desconfiança. O hiper-consumismo faz esquecer os valores crus, as emoções à flor da pele. O amor é, agora, palavra para novelas, e o ódio serve para ilustrar os fait-divers jornalísticos. Nada é vivido com a intensidade das emoções. A sintaxe toma o valor da semântica e as palavras valem pela sua aparência. No entanto, um grupo de pessoas resiste a este estado de coisas: vivem a vida pela vida, com a intensidade de um poeta maldito ou de um actor suicidário, a diletância de um saltimbanco ou a espontaneidade de um marinheiro bêbedo. É uma geração de gentes, mas não separadas pela idade. O que os junta são as emoções, a forma como as vivem e delas sugam a vida: o amor pelo amor, a paixão pelo ódio, a volúpia do suor e a sensualidade do sangue. Tal como os caninos, esta geração vive em matilha e cada cão é a liberdade. É esta a Geração da Matilha


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Caixão da Razão, Mundo Cão, 2007

VÉRBICAS

Novel For Girls, Sára Saudková, 2000


Viaja o verbo solitário
aquém do sujeito.
Copia o descompasso
do arvoredo.

Salta um verbo luminoso
da tua boca
e engole as paredes
ao teu redor.

Brinca o verbo,
o verbo vadio
na impredicância
da tarde.

Canta
o verbo silencioso
e beija as bocas
dos adjetivos.

O verbo
vem envolvido no hálito
da tua manhã
e sai a passear com a brisa.

O verbo, o verbo.
Zomba das horas
e se deita preguiçoso
entre as reticências.


Fabrício Fortes

A NATURAL HISTORY OF THE DEAD


A Natural History of the Dead, Brokenbird, 2009


A morte sempre me fascinou e fascina. Não sendo metafísico quando vejo um cadáver recente, interrogo-me sempre sobre o mistério que insiste em animar um corpo onde a pulsão vital já não habita. Jeremy Bentham (1748-1832), jurista e filósofo inglês, determinou em testamento que o seu corpo fosse perservado numa caixa de madeira enquanto "Auto-ícone", depois da sua morte. Ainda hoje a sua múmia pode ser vista pelo público no University College London, isto desde 1850. A cada 50 anos da instituição a primeira comparece no Conselho Colegial, assumindo a condição de "presente, mas não votante"...

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

VALOR


Donna Luiza Francisca de Gosmão, Charles Legrand, 1841


«Vale mais ser Rainha por uma hora do que Duquesa toda a vida... É preferível morrer reinando do que viver servindo!»


Palavras de Dona Luíza de Gusmão, para seu marido Duque João II de Bragança (futuro Dom João IV O Restaurador), instigando-o a liderar a revolta contra o domínio espanhol.

OBRIGADO SR. SARAMAGO


Body of Abel Discovered by Adam and Eve, William Blake, 1825


Depois das grandes sínteses do século XIX, como as de Marx, Hegel e Kant a questão do divino deixou de fazer parte da fenomenologia. Ainda assim a antiga ecclesia resiste. Pessoalmente não acredito no argumento teológico que desconfia de uma leitura literal. Isto porque aquilo que era literal na explicação criacionista do Genesis, recuou para o domínio semântico da metáfora literária, perante a ofensiva teórica de Darwin. O mesmo já tinha acontecido com o geocentrismo, embora tal teoria não derive da bíblia mas sim da concepção aristotélica. Sendo crente, admitir que uma narrativa sobrenatural possa ser metafórica, é admitir que todo o texto bíblico esteja contaminado por tal possibilidade. Sendo eu cidadão de um Estado Republicano, não entendo tanta celeuma. "Dai, pois a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus (Mateus 22.21)", ou numa versão mais pessoal vox populi: "Entendam-se vocês, que estamos ocupados a rezar". Afinal (ainda?) não somos um Estado fundamentalista religioso. Não sou não obstante um anticlerical primário e reconheço a importância da obra social da(s) igreja(s), onde o Estado se demite, ou não consegue acudir. Obra esta onde se podem testemunhar exemplos de solidariedade desinteressada e anónima.

PORTUGAL, EM VISÃO EXTRAVAGANTE, IX


(Da série) Ocultações, Jorge Molder, 2008


43. Viriato – o Sonho antes do Sonho.

44. D. Sebastião é o mito do imprevisível. Não se sabe a hora do regresso do Rei-Encoberto e, sobretudo, o modo como o fará. Para além do que a tradição consagra como manhã de nevoeiro – leia-se tempos pouco claros – O Desejado é o mito do imprevisível porque representa o que é novo para criar futuro, e o que é verdadeiramente criação nova não se prevê, embora tome depois as rédeas da História. «Morrer, sim, mas devagar» significa, de modo inverso, reaparecer subitamente, por nunca, em verdade, se chegar a morrer.


Eduardo Aroso



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OS POETAS [...] NÃO REPELEM A CHAMA QUE OS ABRAÇA E ARDEM ATÉ À ÚLTIMA FAÚLHA




XXXIII

Do imenso rebanho macacóide, obscura turba inferior, eleva-se, de longe a longe, uma figura que se abrasa na escuridão. Oh, a bela estátua resplandecente, o ígneo bronze!

O Bailado, 1921


E a turba cresce. Aqueles vultos ganham uma existência exterior; enchem o meu escritório, ocupam um lugar no mundo. Quando se agitam, o soalho range, estremece a minha mesa; e o sol, coado pelas vidraças, encontra neles uma resistência que o reflecte, mais vago e triste, sobre mim. Que melancolia! É o Outono a espreitar-me, lá de fora, e a transmitir-me a doença de que morrem as flores. Os meus nervos ardem na febre que incendeia as últimas rosas. Se tu as visses, Primavera!
O Outono é uma doença das árvores e da minha alma que desfalece, como elas, e fica sozinha, numa paisagem moribunda.
Mas os fantasmas aparecem, no ermo. O silêncio das coisas desperta os mortos, em vez de lhes prolongar o sono. Levantam-se do túmulo e surgem, diante de nós. Vemo-los claramente. Porquê? Porque não somos apenas realidade. A fantasia dos Deuses colabora também no nosso ser. Em nós, há uma parte ilusória, por intermédio da qual convivemos com as almas e divagamos nos píncaros da Lua. Eu bem sinto o que, em mim, existe de quimérico, este poder de baixar ao Inferno e de subir na Luz espiritual.

Livro de Memórias, 1928


Teixeira de Pascoaes
In
Poesia de Teixeira de Pascoaes, Antologia organizada por Mário Cesariny, Círculo de Leitores, Camarate, 2005, pp. 170 e 236-237.

O NIRVANA (ENSAIO PSICOPATOLÓGICO DUM DOGMA) DE MANUEL LARANJEIRA E AS RELAÇÕES DO BUDISMO COM A CULTURA PORTUGUESA


Caricatura de Manuel Laranjeira, Amadeo de Souza-Cardoso, 1906


Manuel Laranjeira, no seu ensaio O Nirvana: (interpretação psicopatológica dum dogma), saído a lume no periódico O Porto Médico (1905-1906), propõe a seguinte tese: o Nirvana é um estado mental de cariz patológico. Sendo uma leitura assumidamente naturalista, de cariz médico e psicopatológico, recusa qualquer orientação metafísica, desprezando a metafísica budista por “verbalismo” sem conteúdo. 1 Nesta análise etiológica do autor de Comigo, o Nirvana não é mais do que a “expressão nosográfica dum estado hipnótico (catalepsia? letargia? Sonambulismo inactivo – ou antes êxtase sonambúlico?)” 2 que, surpreendentemente, é depois “elevado à suma categoria de dogma.” 3 Ou seja, uma espécie de torpor mental que, principiado na mente do próprio Buda Sakiamuni, fertilizada pelo “solo doentio” da Índia – na expressão de Laranjeira –, se estende a uma comunidade de seguidores tal como uma doença: a “doença da santidade” (título da sua tese de doutoramento), sedando-a no estupor nirvânico 4, e progressivamente ganhando contornos de religião autónoma. Tudo começa por uma hipnose auto-induzida, que Laranjeira vê como também sendo a base do êxtase do místico cristão. É esta a tese central do texto, igualmente formulada, e de forma lapidar, em A Doença da Santidade:

E, muitos séculos antes de Charcot apresentar à Academia das Ciências de Paris a revelação desse curioso estado “com caracteres somáticos fixos, não simuláveis”, já nas florestas indianas o iogui sabia obtê-lo, e um monge, que, diz a lenda, trocara a vida faustosa de príncipe pela penitência rude, áspera, do ascetismo, andava a prega-lo como sendo o meio único de conseguir a “libertação da dor”. O Nirvana, através dos tempos e das gerações, que lhe chamaram, ora beatitude, ora acalmia da alma, ora comunhão com a divindade, ora matrimónio espiritual com Deus, ora liquefacção da alma no divino esposo, aflorou em pleno século XIX, e a ciência médica chamou-lhe hipnose. 5


Duarte Drumond Braga
Centro de Estudos Comparatistas/CLEPUL, Universidade de Lisboa
In Revista Lusófona de Ciência das Religiões – Ano VI, 2007, nº 11, pp. 145-152.


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A NOITE E O RISO, Cantiga




Mote na boca o riso a hiena
Ladra o cão co’ toda a face
Louva-a-deus essa mão empena
Mote na boca o cão apaga-se

Urf urf arfa o muro

A flor abre amarela
Hiato a boca abre do cão
A cal morde pela trela
Diz o nulo de branco não

A pedra é mole a pedra é mole
A circunstância não mora aqui

Urf urf vem e leva-me
Urf urf vai e deixa-me

De palavra nuvem vento
A flor abre
A flor abre
Amarelo palavra urro

No humano fecha a flor
No humano palavra vinho
Não há luz
Não há luz
Morno fogo qu’ aqueça as mãos

De flor o corpo qu’ eclode
Pela nuvem brota o dardo
Não há baixo nem cima ou lado
Morro humano bate a ode

Sou o vento sou o vento
A flor nasce nos meus dedos

Vem a pedra a pedra o lobo
Olho a nuvem hiena sou
Pela mão lobo uivo

Lips! Lips! Limpa o ar!
Lips! Lips! Lava a voz!

Uuuuuuuuuu abre
A vogal o vento na flor
Uuuuuuuuuu diz
Hiato móvel mantém dor

Pequeno lobo pequeno cão
Esvai-se o vento vai-se o vinho
Pequena flor pequena mão
Irrompes-me vivo no vizinho

Sou teu sexo a humidade
Não me penses a nuvem vem
Abre vento acolhe o sangue
Fogo veia que esperneia

Abre os olhos vê cruel
Somos o fogo deste fel
Rola rola rola anilha
Somos a água desta ilha

Somos o cão
Somos a hiena
Sou-mos o lobo e não morremos

ANCESTRALIDADE


Spirit, Bauhaus, 1982


No uivo, o soluço do arbusto, o sopro dos antepassados...
Os que morreram nunca partiram, estão na sombra que se ilumina e na sombra que se torna espessa, os mortos não estão sob a terra: estão na árvore que estremece, estão no bosque que geme, estão na água que corre, estão na água que dorme, estão na cova, estão nas multidões: os mortos não estão mortos...
Os que morreram nunca estão ausentes, estão no seio da mulher, estão na criança que chora, e no tronco que queima.
Os mortos não estão debaixo da terra: estão no fogo que se apaga, estão na erva ferida, estão na floresta, estão na cabana e no lamento da rocha, os mortos não estão mortos.


Recolhido por Birago Ishmael Diop e parte da cultura tradicional Bantu, adaptado por Babalith.

domingo, 1 de Novembro de 2009

AS ILHAS AFORTUNADAS


Dom Manuel I como Rei dos Mares, autor desconhecido, gravura alemã do Séc. XVI


Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutamos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.


Fernando Pessoa, 26-3-1934, in Mensagem

EDITORIAL, Novembro (Ano II)




Para onde se adivinha o final de um curso de água a humanidade, imemorialmente, tem concebido a esperançosa narrativa de chegar a um lugar paradisíaco. Para além das Colunas de Hércules, o imaginário da civilização helénica mapeou o Mar Oceano de ilhas edénicas, rios que ligavam o mundo dos vivos ao dos mortos, terras repletas de monstros, deuses e reinos de imortais, riquezas mil, nem todas do ouro e da prata, e com o sonho de uma civilização perdida, modelar, originária, a que a sabedoria e civilidade humanas jamais retornariam: a Atlântida. A Finisterra foi parte desta utopia, fabulosa e temível.
Roma alimentou-se de muito desse imaginário, que continuou a assombrar poetas, viajantes, historiadores e até o pânico das Legiões perante o desconhecido e o bárbaro, mas para o homem político a Hispânia foi apenas mais um lugar a pacificar, na prevenção estratégica de que um novo Aníbal Barca recrutasse as aguerridas tribos ibéricas para ameaçar a capital do império do mundo. Conseguida essa pacificação, a Península funcionou como um lugar de degredo para onde se afastavam de Roma as tribos germânicas impossíveis de romanizar, ou melhor, de galicizar, tendo sido, em boa parte, deixado o chão seco da Hispânia entregue às brumas do mito e da lenda.
Esta colonização incompleta, que haveria de ser repetida frustremente por Godos e Islamitas, permitiu que os diversos estratos culturais deixados por todos os invasores da Península Ibérica fossem, desde o judaico Tartessos, sobrevivendo e constituindo a tapeçaria civilizacional complexa que é a herança dos Ibéricos. Para este fluxo e refluxo de povos, sempre impermanente, ou não durável o suficiente para criar uma hegemonia, contribuiu a lonjura da Terra das Serpentes em relação ao centro do Mediterrâneo.
Terra do Fim, fronteira última entre o mar conhecido e o mar ignoto, a Hispânia haveria de erguer-se como a última coroa da Civilização Mediterrânica, quando na aurora do Renascimento os Portugueses, dos escombros da inigualável Civilização Ibérica Islâmica, haveriam de lançar-se à conquista do Atlântico...
Mar Mediterrâneo, o braço de luz forte e branda que aflora a cabeleira de tenebrosos sargaços do mar revolto, sem fundo nem términus. Povoar o Atlântico, o último grande templo por erguer na utopia universalista que acendeu o Farol de Alexandria...


Lord of Erewhon

sábado, 31 de Outubro de 2009

RENASCIMENTO...


Eis que Outubro termina e os festejos no meio de bruxas e duendes... Foi uma celebração participada, expressiva da estima que temos por este noss' O Bar do Ossian: 141 posts (ultrapassámos o record de Novembro de 2008!) e chegámos às 30.000 visitas! Excelente, para um blogue com 1 ano de existência.


Agradecemos a todos os nossos colaboradores e leitores, por este ano de bom gosto, qualidade e beleza.
Vivam Ossian e Viriato!

Abraço lusitano!
A Redacção

DAIMON, Porquê?




«– (...)Nós não temos raízes. Podemos ir a outros lugares. Podemos visitar cento e sessenta e quatro mundos e caminhar sobre eles.
– É a resposta à tua pergunta, Brock. É o porquê que procuravas. – Suspirei. – Sabes porque é que partimos, para explorarmos o Universo? Não porque estivéssemos a fugir. Não porque houvesse qualquer impulso que nos levasse a deambular de planeta em planeta. É apenas porque podemos fazer isso. É o porquê que procuravas. Exploramos o Universo porque podemos explorá-lo.
(...) – Somos especiais. Podemos mover-nos. É um privilégio da Humanidade. Aquilo que nos torna em nós.
Não precisei de dizer mais nada. Ao fim de onze anos, não precisávamos de reduzir a palavras todos os pensamentos. Mas agora sabíamos qual era a resposta, a característica única que aquelas vides lá em baixo tanto nos invejavam. A mobilidade.
Por fim deixámos Alphecca II e fomos para outro lado. Visitámos os outros mundos do sistema e partimos para longe, muito longe dessa vez, num salto tão grande quanto nos era possível. Fomos dali para um novo sol e daí para outro e sempre para outro.
Levámos connosco uma recordação de Alphecca II, segundo creio. Quando partimos, a vide que se enrolara em torno da nave, agarrou-nos com tanta força que não se libertou no arranque. Ficou agarrada a nós enquanto subíamos para o espaço, pendurada, com raízes e tudo. Por fim ficámos cansados de olhar para ela e Brock saiu num fato espacial e cortou-a, desprendendo-a da nave. Deu-lhe um empurrão, imprimindo-lhe velocidade, e a vide começou a deslizar no espaço, na direcção do sol.
Alcançara o seu objectivo: abandonara o seu mundo natal. Mas morrera na tentativa. E concluímos que essa era a diferença – toda a diferença no Universo – enquanto nos dirigíamos para longe e cada vez mais para longe, através dos espaços infinitos.»
in Porquê?, Robert Silverberg


[O autor apresenta nesta pequena narrativa de ficção científica, intitulada Porquê?, uma das mais importantes questões neste domínio: porquê ir para o espaço, porquê correr riscos, porquê?]




Le Voyage Dans La Lune, Georges Méliès, 1902 (narração de Madeleine Malthête-Méliès)

NOTÍCIAS DE VERA CRUZ, Malta de Poetas, Folhas & Ervas: Edvandro Pessoato



Malta de Poetas, Folhas & Ervas é um grupo de poetas que atua na cidade de Belém do Pará há 23 anos. Edvandro Pessoato é membro do grupo, nascido no Ceará, mas radicado em Belém.


ODOR, de Edvandro Pessoato:




DEUS EM DEMASIA

Deus está em liquidação
nas prateleiras
dos supermercados da existência.

Deus virou produto barato.

Deus é fácil de usar –
Olha aí!
Quem vai querer?

Embalagem nas versões
lobo e cordeiro.

Manual de instruções
em várias línguas.

Alerta para o código de barras:
pode estar decorado, clonado, falsificado.

Prazo de validade eterno.
Garantia da vitrine.
Permanente promoção de natal.
Aproveite!
Deus é reciclável!


Edvandro Pessoato
In Luz – Antologia, Malta de Poetas, Folhas & Ervas, Belém: Paka-Tatu editora, 2004.

FIÉIS MORTOS


Aos sinquo dias do mes de maio de mil e seiscentos e ses
senta e sinquo annos faleceo da vida presente com
os Sacramentos huma Mulher pobre q handava
vagueando pelo mundo & falleceo em, digo, no lugar
de Manhufe não se soube o nome, muito pobre, em fé
do que me assino aqui era ut supra.

João Esteves de Aguiar


Vaguearam pelo mundo sim, e deles nem sabemos o nome que o anjo lhes deu. Pobres, mesmo quando o não souberam até à hora que nenhum galo cantou. Foi em Maio de mil seiscentos e sessenta e cinco e foi vinte mil anos antes e foi no dia que talvez um livro infinito guarde para ti; foi em Manhufe e foi em Tróia e foi no alto mar e foi junto ao rio tranquilo que hoje é areia do deserto e pó. Vaguearam, e não sabemos se nos encontram. Mas na morte tudo se faz agora e aqui: fiéis mortos que nos faleceram, que quer dizer nos faltaram, e tanta falta nos faz olhar tanta falta nos fazeis vós.

O dia de hoje é ponte sobre os abismos: dia dos mortos fiéis, samhain, dia de todos os santos, all hallowed eve; o dia de hoje é passagem que não tem voltar. Gostosuras e travessuras, pois, de misturadas coisas é feita a alma que somos, pombas do espírito e corvos do fim.

Olhai. Chega a noite, e os mortos sabem.



Na fotografia, excerto do livro de óbitos da freguesia do mosteiro de São Martinho de Mancelos, a que pertence Manhufe, com a assinatura do pároco, Pe. João Esteves de Aguiar. Nesse mesmo lugar de Manhufe, duzentos e vinte e dois anos depois, nasceu uma criança que hoje ainda recordamos como o pintor Amadeo de Souza-Cardoso; duzentos e vinte e dois anos antes tinham nascido outras crianças e morrido outras mulheres, de que se perdeu o nome e a memória. A leitura do documento é de Goldmundo. A todas as cinzas, paz.

PINCÉIS DA LUA


Crucifixion (Corpus Hypercubus), Salvador Dali, 1954


Os céus laranja
Desfeitos por dedos amantes
E as mãos caídas
Da nostalgia
Esganam os cães.

A piscina avermelhada
Com rosto rompido
Nas propostas da sombra
Do que nunca foi sentido.

Os sonhos escorrem como água
De tristezas características
E florestas metafísicas.
Os mortos comem os vivos,
Os poemas ardem na pressa
Das fotografias tiradas.

A Lua esburacada sorri.


Horned Wolf

HAPPY HALLOWEEN


hELl channel 13 presents Devil Song, Ruela, 2009

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

EZRA POUND

Para Ezra Pound, no dia do seu nascimento


Ezra Pound, Vortograph, Alvin Langdon Coburn, 1917


__________________________Veni
De um continente bárbaro e a minha sabedoria é bárbara.
Atravessei a pé um país de séculos
Para dar voz aos mortos
Contra uma civilização de doidos e de pulhas.

Quem sois vós para me julgar, ó corruptos?

Eu, que amei as raparigas e os palácios,
Eu, que amei o alaúde do trovador e o canhão do tirano,
Que amei o Oriente e o mar e fui todos os poetas.

Raiva, ah, raiva!
A mim Orfeu, Baco, Apolo, Circe,
Trucidai estes palhaços.

Querem fuzilar-me? Querem alienar-me? Querem silenciar-me?

Ah, tirem as mãos de cima!
Eu serei livre para provar o sangue, como Vidal
E os piratas de Homero,
Eu serei livre para cantar e cantar
E il mio cantare abrirá fendas nos muros.

Trancado nesta jaula, até os macacos
Ensinarei a escrever poesia.


Jesus Carlos

MEMÓRIA DAS BIBLIOTECAS ITINERANTES


Biblioteca Itinerante Gulbenkian, autor desconhecido, anos 60


Passou os dedos pelo livro que segurava no regaço. As unhas, pintadas de vermelho e bem cuidadas, contrastavam com a capa amarelecida pelo tempo. Conhecia-lhe a história de trás para a frente e conseguia, de imediato, encontrar a página de algum excerto que quisesse revisitar.
Cuidava deles como parceiros de uma vida. Cada um marcava uma etapa do que vivera, das preocupações e sonhos por que passara.
Foste o meu primeiro livro. O Principezinho sorria-lhe enquanto falava com a raposa.
Era de uma pequena aldeia, de um tempo em que a cultura era um luxo a que nem todos podiam aceder. Salvara-a a carrinha da Gulbenkian que os visitava a cada mês. Contava os dias pelo cartão, como um prisioneiro que antecipa a liberdade. Aquela centena de volumes parecia-lhe uma porta aberta para o mundo, guardada pelo homem alto e seco.
Não gostava de os emprestar, eram demasiado preciosos para correr o risco de os perder. Olhou as lombadas que enchiam as estantes à sua volta.
A maior parte ainda tinha o preço, marcado a lápis ou inscrito numa etiqueta colada. A passagem do tempo também se media pelos preços. Comprar um livro era prescindir de alguma outra coisa.
Ouvia as gargalhadas da Clarissa, a sensualidade da Sabina, a sabedoria ingénua da Anna, a ousadia das Marias, os calotes, gravados na letra certa e bem desenhada, do avô.
Levantou-se da poltrona confortável e pegou nas chaves do carro.
Preciso de conversar com alguém.
A FNAC era um bom destino de final de tarde.

EXAUSTÃO


Dozing Consciousness, Marina Abramovic, 1997



Sinto a inexistência como única verdade incontestável.
Soma de tudo que não chegou a ser.
Tempestade fútil que nos conduz pela treva
obrigando à ironia da incerteza.
Deitamo-nos lado a lado com a angústia de nada saber.
E a luz porque ansiamos reside lá longe... em lado nenhum.
Tudo é nada.

(...)

Não conheço outra forma de intimidar o desespero senão dissimulando a morte do pensamento.
Esforço-me por encontrar a tolerável sustentação da vida...
e a loucura da realidade trar-me-á de volta o desiquilibrio.
Penso em nada.

(...)

Há a pedra que absorve o tempo anterior a mim...
... posterior a mim.
Há a ponte que se ergue, instável, entre o berço e o sepulcro.
Há a ampulheta dos dias que é chama lambendo cera.
Há o sangue fervido onde dissolvo a essência do que sou.
E de novo... Nada.

(...)

Difícil é primar pela razoabilidade quando quebramos a linha da inexistência só para respirar o ar do mundo.
Difícil é tentar definir emoção ou consciência da emoção a ponto de a tornar palpável...
ou suportável?!?!?
Difícil é supor-se diferente de si mesmo só para se sentir vivo...
Difícil é perceber que nada leva a nada...

(...)

A verdade...
A verdade é o deslizar contínuo das línguas para dentro de nós.


William VII in DCCLXXVII

O FUNERAL DE VIRIATO



O que melhor conhecemos dos Lusitanos são relatos de combates. Os
guerreiros agitavam as longas cabeleiras para atemorizar os inimigos e avançavam para a luta em saltos rítmicos, entoando cânticos bélicos.
Eram-lhes reconhecidos tanto o valor como a inocência.
Incapazes, em geral, de ultrapassar as divisões tribais para se apresentarem como uma nação em armas, deixavam-se seduzir facilmente pelas boas palavras do inimigo. "A política de luvas brancas de Aníbal, ou a dos romanos Cipião, Tibério Graco ou Sertório, valeu-lhes mais do que as vitórias militares que tinham obtido”.
As representações que chegaram até hoje ilustram a paixão dos povos ibéricos pela caça e pela guerra. Testemunham também a alegria de viver, com cenas em que se aliam frequentemente a música e a dança. São igualmente bem conhecidos os rituais que envolviam a morte.
Entre os Lusitanos, a cremação efectuava-se em piras. As cinzas eram encerradas numa urna que se colocava na sepultura.
No decorrer do século II A.C., tanto as armas que acompanhavam o cadáver como as ofertas eram queimadas. O que restava era depositado dentro das urnas, ou à sua volta. As falcatas (armas encimadas por uma es
pécie de foice, capazes de mutilar um inimigo, ou de o degolar) mostram-se dobradas nas escavações arqueológicas. As lanças aparecem torcidas e os elmos amolgados. As armas eram inutilizadas, para não voltarem a ser usadas pelos violadores de sepulturas.
O respeito pelos restos mortais inumados devia ser quebrado com frequência, já que se repetem inscrições em caracteres ibéricos que deverão corresponder a fórmulas mágicas destinadas a preservar o defunto de todos os males e a amaldiçoar os violadores de tumbas.
De um modo geral, as cerimónias funerárias eram simples. Revestiam-se de outra grandeza quando estavam em causa homens ilustres. Existe, pelo menos, um relato das honras fúnebres prestadas a Viriato.

“Quando da morte do caudilho Viriato o corpo deste chefe, adornado com as suas melhores vestes e armas, foi queimado numa alta pira; logo que o fogo se ateou, os guerreiros iniciaram uma dança frenética em redor da fogueira, enquanto esquadrões de cavaleiros evolucionavam em marchas fúnebres. Entretanto, os bardos cantavam as glórias do herói; depois, quando o fogo se consumiu, as honras continuaram com lutas sobre a sepultura, que envolveram duzentos pares”.


Referências:
António Arribas, Os Iberos, Editorial Verbo, Cacém, 1971.
Gravuras: idem.
Fotografia de guerreiro trasmontano: Religiões da Lusitânia, Museu Nacional de Arqueologia, 2002
.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

BEN NEVIS *


Hunting and Shooting in the Scottish Highlands, Horatio Ross (?), 1856 (?)


Verde escura é a noite sagrada
Que fortalece o valor de um coração
Bárbaro. Pirâmide da Escócia,
Sentinela, tu vigias,
As terras mais livres do mundo.
A liberdade do cavalo e do homem.
O voo do corvo e o do falcão.
A beleza do veado e o rugido do mar.
Tu vigias, o coração da Escócia
E o meu, tão solitário, que,
No alto de ti,
Bate.


Lord of Erewhon


* Ben Nevis é a montanha mais alta da Escócia (cerca de 1340 m), para onde confluem as Highlands.

CONVITE – APRESENTAÇÃO DA OBRA DE OLHOS LAVADOS

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

WAY OF THE SERPENT




Jung descreve as características da serpente, que fizeram dela um símbolo natural, autónomo e profundamente enraizado na psique humana, nos seguintes termos:
Ela surge espontaneamente ou é descoberta de surpresa; fascina; tem o olhar fixo e não ligado àquilo que fita; o seu sangue é frio e não conhece o homem; desliza sobre aquele que dorme; é encontrada no sapato desatado ou na algibeira. Exprime, assim, o medo de tudo o que é inumano e, ao mesmo tempo, o “temor reverencial” perante o ser superior, alheio à esfera dos homens. É o que há de mais baixo, o diabo, e o que há de mais elevado, o Filho de Deus, o Lógos, o Noûs, o Agathodaimon. A presença da serpente é assustadora, aparece nos lugares mais inesperados. Como o peixe, representa e personifica o que é obscuro e insondável, a profundidade da água, a floresta, a noite e a caverna. Quando a consciência primitiva diz “serpente”, está a referir-se a uma experiência do não-humano.A serpente significa uma alegoria ou uma metáfora, é a sua própria forma que é, em si mesma, o símbolo, e é essencial que o “filho” tenha uma forma de serpente e não o inverso, porque a serpente simboliza o “filho”. *




O caminho da Serpente está fora das ordens e das iniciações, está, até, fora das leis (rectilíneas) dos mundos e de Deus. O carácter maldito, o aspecto repugnante, da Cobra, traz marcado a sua Oposição ao Universo – profundo e obscuro Mistério Magno. Ela é o Espírito que Nega, mas nega mais, e mais profundamente, do que em geral se entende ou se pode entender. Nega o bem no seu baixo nível, em que é só Serpente e tenta Eva; nega a verdade no seu segundo nível, em que é (…) nega o bem e o mal no seu terceiro nível, em que é Satã; nega a verdade e o erro no seu quarto nível, em que é Lúcifer; (ou Vénus); nega-se a si mesma e a tudo no seu quinto nível, e fuga, em que é SS, a Revelação Suprema. (…) e a si mesma se tenta e se mata.
Todos os caminhos no mundo e na lei são rectilíneos; o caminho da Serpente é a evasão dos caminhos, porque é, substancial e potencialmente, a Evasão Abstracta, o reconhecimento da verdade essencial, que pode exprimir-se, poeticamente, na frase de que Deus é o cadáver de si mesmo; a descoberta do Triângulo Místico em que os três vértices são o mesmo ponto, o segredo da Trindade e do Deus Vivo, que, em certo modo, é o Homem Morto em e através de Deus Morto. **



Imagens: colecção Plato's Atlantis, Alexander McQueen prim/verão 2010


* Porto do Graal – A riqueza ocultada da tradição mítico-espiritual portuguesa, Lima de Freitas, Ésquilo, 2006, pág. 261.
** Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética – Fragmentos do espólio, Fernando Pessoa, (Introdução e organização de Yvette K. Centeno) Lisboa: Presença, 1985, pág. 35, “O Caminho da Serpente”.

PORTUGAL, EM VISÃO EXTRAVAGANTE, VIII


(Da série) Circunstâncias Atenuantes, Jorge Molder, 2003


36. Um escritor, ao tratar um tema de índole religiosa, ou nos ajuda a (re) ligare o que há de humano e divino em nós, ou contribui para nos afastar cada vez mais da nossa natureza essencial. A sua obra, ou nos eleva, ou nos rebaixa. Ou abre horizontes de infinitude, ou no seu cepticismo (às vezes cinismo) pode, com mais ou menos alcance, substituir-se à fonte de onde bebeu. Esse puro som da água, o autor poderá ouvi-lo, mas nunca escutá-lo. E assim, certas criações literárias vão-nos ficando como «manuais de crueldade», e o mais perigoso é que a questão se pode tornar em novos e maus costumes, isto é, a obras desta natureza seguem-se outras do mesmo estilo…

38. Aquele cuja língua golpeia a casa sagrada da Palavra do Senhor e comete violação no regaço do coração dos simples, um dia poderá ou não ter a graça de Deus de não ficar tolhido das mãos para manejar o arado, a caneta ou o computador.


Eduardo Aroso



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PARA NUNCA MAIS


Filmstill de Wiesent-Cinema, Dieter Appelt, 2001


Diz-lhes que não vale a pena,
Que eu já deixei morrer a voz do mundo
Apagada na noite de ninguém.

Leva-lhes o sudário que envolveu
O cadáver da imaginação
E as lágrimas da noite que me velou o corpo
Na fúnebre passagem
De quem parte para nunca mais voltar.

Diz-lhes que o tempo passou
E que a morte afagou os meus cabelos
Com dedos de sonho e de ilusão,
Promessa de esferas perdidas
No pacto de todos os sonhos derrotados
Pelo renascimento das breves eras
Tecidas na minha missão.

E leva-lhes aquele pergaminho,
Traçado em letras de sangue e de suor,
A prova do que a deusa prometeu
Nos silêncios do abismo que quebrei
E que aceitei.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

BARRO DA LUSITÂNIA, Bichos


Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha (São Martinho de Anta, Vila Real, 12 de Agosto 1907 – Coimbra, 17 de Janeiro de 1995)


Não me lembro do nome. Poderia chamar-se como tu. De Miguel. Ou Adolfo. Criança. Como eu. As mãos... mãos de homem. De velho. Calejadas. Unhas sujas. Seguram num pão maior que os dedos encurvados e grossos. A côdea aberta à força da navalha. Barrado com fatias de marmelada. Mostra-me os dentes. Que caem. É criança. As minhas manhãs são tardes para ele. Nunca bebeu leite. Sem ser ali. Na escola. Dado pela minha mãe em canecas de esmalte estalado e copos de plástico a saber a terra. Dado por quem se preocupava. Dado na esperança de lhes dar alguma coisa que alimente. A incapacidade em alimentarem-se de letras e palavras. De números e carteiras de madeira. Existe em mim o romantismo que tu negaste. Ou não? Porque só podemos amar o bicho se ele for bicho. Porque a brutalidade da vida não os amansa. Nem educa. Porque a miséria humana estará sempre para lá do esforço físico.

O tiro partiu, o podador caiu de bruços sobre a videira, e o sol por detrás dos montes começou a tentar encher o dia de inverno de uma luz doirada de primavera.

Violentos. Na vida. Violentos. Na morte. Afastado observas. Mudarias? Mudarias, talvez. Darias pão e vinho. Porque é pão e vinho que querem. Porque nada mais conhecem que pão e vinho. O sangue derramado em ervas secas. O sémen derramado entre videiras. A mesquinhez e a solidão. A brutalidade de só se pisar caminhos de terra e campos sempre à espera de suor. Senti-te assim que te conheci. Eu que roubei carroças. E comi massa de pão. Azeda. Choro todos estes sabores. Eu que bebi leite quente da teta e deitei-me em searas. Sim. Estavas perto. No entanto não te envolvias. Doía-te? Dói. Mas eu sempre tive esta capacidade de gargalhada. De sentir a angústia e rir-me do que resta dela. Sempre resta algo. Sabes? Saberias? Sou criança.

A paga que recebia! Não bastavam as chicotadas secas e contínuas que, com a soga da rabeira, lhe dava na cabeça, nas ancas e onde calhava, ainda um insulto daqueles! Mas chegara ao limite das forças. Batesse, espetasse mesmo a ponta da navalha, à laia de espora, fizesse o que entendesse... Fora até onde podia. Agora...

A Natália, a Estrudes, a Madalena, o João Rã, o Marcolino, o Farrusco. Cães. Ladram. Patrões e mulheres que fogem aos maridos. Que as amam e maltratam. Porque foram amados com cintos e madrugadas frias de enxada na mão. São avós, Miguel. São bisavós. As que comigo correram no pátio de escola. Deixaram-me sem passado. Existe quem se relacione com os colegas das contas de somar. A mim deixaram-me este vazio. Porque nos seus olhos ficamos em silêncio. Abrem-se bocas desdentadas e negras. E silêncio. As igrejas. E os bailes. Tu pertencias. A dor em pertencer. Eu não pertencendo entrava e saía. Como agora. Como hoje. Esta leviandade agarrada à pele.

Exausta, deixou-se ficar prostrada, a saborear o alívio. As cancelas, escancaradas fechavam-se lentamente... Por fim, cansou-se da própria imobilidade. Ergueu-se, então. E permaneceu assim alguns segundos a ouvir o silêncio, como a ver se lá do longe vinha resposta aos gritos desesperados que lançara. Nada! O mundo emudecera.

Cega-rega. Satanás. Criador. Fome. Pobreza. Fome. Fome. Uma solidariedade de berço. A nossa angústia. Em abraço. Tu homem de feições duras. De homens que roem o estômago e cantam descalços. De amor. O amor! O amor de deuses gregos. Com invejas e crimes. Traições e escravidão. O silêncio dos montes. E do vento. Sentes? Sei que sim. E sinto-te. Porque como disseste "onde está ou tenha estado um homem é preciso que esteja ou tenha estado toda a humanidade".

Obrigado.

ENTREVISTA DE A. LOPES DE OLIVEIRA A FERREIRA DE CASTRO


Na «Pastelaria Veneza», à Avenida da Liberdade, costumam reunir-se alguns homens de letras e jornalistas. Entre eles avulta Ferreira de Castro – o escritor português cujos romances estão dando a volta ao Mundo.
Quem veja a figura desafectada de Ferreira de Castro, não adivinhará, por certo, que ela oculta na sua modéstia, simpática e afectuosa, um prosador de garra e um novelista de renome, já hoje, universal.
Pois foi ali, na «Veneza», que nós, naquela tarde, encontrámos o escritor. Nesse dia, estava sozinho, tirando longas fumaças do seu cigarro, com o olhar perdido – quem sabe? – nas recordações da floresta amazónica.
Sentámo-nos, junto dele, e conseguimos distraí-lo e trazê-lo às realidades da vida europeia.
Ferreira de Castro evocou-nos alguns episódios da sua aventurosa vida, através do mundo, e, foi depois disto, que a entrevista surgiu naturalmente, como a propósito da conversa que ele mesmo trouxera à baila.
Perguntámos-lhe então:

– Como trabalha?
A resposta não se fez esperar. Ferreira de Castro poisou a chávena de café e, tirando uma longa fumaça, disse-nos:

– Gosto de trabalhar num ambiente de pura tranquilidade, porque assim posso mergulhar melhor no trabalho que realizo.

E acrescentou, num desabafo natural:
– Ambicionava trabalhar à sombra duma frondosa árvore amiga, num sítio solitário, longe dos bulícios. Mas, impossível!

Ferreira de Castro acrescenta ainda:
– E integro-me de tal forma no trabalho que estou a viver, que me esqueço de tudo e de todos.

E, a propósito, contou-nos um dos mais curiosos pormenores da sua vida laboriosa:
– Uma vez estava a trabalhar num hotel em Nova-Iorque. De súbito, desenrolou-se uma horrível tragédia, um incêndio, cujas labaredas lambiam sofregamente parte do edifício. Minha