
Caricatura de Manuel Laranjeira, Amadeo de Souza-Cardoso, 1906
Manuel Laranjeira, no seu ensaio O Nirvana: (interpretação psicopatológica dum dogma), saído a lume no periódico O Porto Médico (1905-1906), propõe a seguinte tese: o Nirvana é um estado mental de cariz patológico. Sendo uma leitura assumidamente naturalista, de cariz médico e psicopatológico, recusa qualquer orientação metafísica, desprezando a metafísica budista por “verbalismo” sem conteúdo. 1 Nesta análise etiológica do autor de Comigo, o Nirvana não é mais do que a “expressão nosográfica dum estado hipnótico (catalepsia? letargia? Sonambulismo inactivo – ou antes êxtase sonambúlico?)” 2 que, surpreendentemente, é depois “elevado à suma categoria de dogma.” 3 Ou seja, uma espécie de torpor mental que, principiado na mente do próprio Buda Sakiamuni, fertilizada pelo “solo doentio” da Índia – na expressão de Laranjeira –, se estende a uma comunidade de seguidores tal como uma doença: a “doença da santidade” (título da sua tese de doutoramento), sedando-a no estupor nirvânico 4, e progressivamente ganhando contornos de religião autónoma. Tudo começa por uma hipnose auto-induzida, que Laranjeira vê como também sendo a base do êxtase do místico cristão. É esta a tese central do texto, igualmente formulada, e de forma lapidar, em A Doença da Santidade:
E, muitos séculos antes de Charcot apresentar à Academia das Ciências de Paris a revelação desse curioso estado “com caracteres somáticos fixos, não simuláveis”, já nas florestas indianas o iogui sabia obtê-lo, e um monge, que, diz a lenda, trocara a vida faustosa de príncipe pela penitência rude, áspera, do ascetismo, andava a prega-lo como sendo o meio único de conseguir a “libertação da dor”. O Nirvana, através dos tempos e das gerações, que lhe chamaram, ora beatitude, ora acalmia da alma, ora comunhão com a divindade, ora matrimónio espiritual com Deus, ora liquefacção da alma no divino esposo, aflorou em pleno século XIX, e a ciência médica chamou-lhe hipnose. 5
Duarte Drumond Braga>
Centro de Estudos Comparatistas/CLEPUL, Universidade de Lisboa
In Revista Lusófona de Ciência das Religiões – Ano VI, 2007, nº 11, pp. 145-152.
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